Madonna Lacrimosa I

 Este segundo ano de pandemia trouxe demasiadas lágrimas. Afectou todos, em particular e desproporcionalmente os mais vulneráveis habitantes do mundo, pobres, mulheres, crianças, minorias, idosos, migrantes e refugiados. Não ajudou que houvesse as secas e tempestades agravadas pelas alterações climáticas, novos comportamentos beligerantes entre Estados (guerras, massacres étnicos e invasões), o aumento da fome extrema e a consolidação da extrema-direita através da sua normalização por parte da direita dita moderada.

No entanto, esta publicação será sobre as lamentações duma direita que não se sabe orientar e, em particular, sobre um temido fim do ex-Centro Democrático e Social, conhecido como Partido Popular (CDS-PP), havendo posteriormente uma segunda publicação acerca do Partido autoproclamado "Socialista", o chumbo do OE 2022 e a sua sabotagem da geringonça.


Uma curtíssima história do CDS-PP

Fundado em 1974 por uma pequena parte da elite do regime fascista do Estado Novo (tal como o PSD e vários outros partidos da direita), incluindo ex-governantes como o ministro do Ultramar que ordenou a reabertura do campo de concentração do Tarrafal e ainda a abertura dum campo de concentração no Missombo (também em Cabo Verde, mas na ilha de Santiago) em 1961, Adriano Moreira (que até foi presidente do partido entre 1986-88 e interinamente em 1991-92). Durante o PREC salvou-se invocando uma ideologia "centrista" e neutralidade nas tentativas contra-revolucionárias do Spínola (manifestação da Maioria Silenciosa de 28/9/74 e a tentativa de golpe de 11/3/75), enquanto se juntava ao então PPD e ao PS para atacar sedes do PCP e militantes doutros partidos de esquerda e votava contra a Constituição até à ulterior sabotagem das conquistas revolucionárias a 25/11/75.
Rapidamente integrou nas suas fileiras membros de movimentos de extrema-direita (MFP/PP, PDC e PL) e de grupos terroristas spinolistas (FLA, FLAMA e MDLP/ELP), tal como o rebaptizado PSD, e conquistou a existência como partido muleta, primeiro com o PS de Soares (II governo constitucional, 23/1-29/8/1978), seguindo-se a coligação eleitoral designada Aliança Democrática com o PSD de Sá Carneiro e o PPM de Ribeiro Telles (VI e VII governos constitucionais, 3/1/1980-9/1/1981 e 9/1-4/9/1981), retomando cargos governamentais só com o PSD neste século com Durão Barroso (XV governo constitucional, 6/4/2002-17/7/2004) e Santana Lopes (XVI governo constitucional, 17/7/2004-12/3/2005) e depois com Passos Coelho (XIX governo constitucional, 21/6/2011-30/10/2015, e no efémero XX governo constitucional, pela coligação eleitoral designada Portugal à Frente, 30/10-26/11/2015), prática também presente em vários órgãos autárquicos e regionais com o PSD, sendo os casos mais recentes o XIII governo regional dos Açores, onde se coligou com o PSD e PPM e assinou acordos de incidência parlamentar com o partido de extrema-direita Chega (que inclusive lhes tem tirado eleitores e militantes) e o partido fanático neoliberal IL após as eleições de 25/10/2020, o XIII governo regional da Madeira, onde se coligou com o PSD após as eleições de 22/9/2019, e na Câmara Municipal de Lisboa, pela coligação eleitoral designada Novos Tempos com o PSD, Aliança, MPT e PPM após as eleições de 26/9/2021.
De natureza reaccionária, para além de ter votado contra a Constituição, votou contra a criação do Serviço Nacional de Saúde, o sistema de Segurança Social, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a legalização do casamento LGBT+, o reforço de direitos dos trabalhadores, a descriminalização do consumo de drogas e a eutanásia, para além de ter tido posições homofóbicas, xenófobas, anti-semitas e de veneração do regime fascista do Estado Novo.

O que mudou recentemente?

Uma mudança no panorama geral da direita, não só portuguesa, mas global. Tornou-se mais reaccionária, até proto-fascista, normalizando comportamentos autoritários.

No CDS, saiu da liderança o populista Paulo Portas pela segunda vez (tinha sido presidente do partido entre 22/3/1998-24/4/2005, regressou a 21/4/2007) a 13/3/2016, sendo sucedido por Assunção Cristas, o seu braço direito, cujo segundo lugar na CML com as autárquicas de 2017 inflacionou o ego ao ponto de levar o partido altamente dependente da subvenção do Estado e de borlas da Igreja às dificuldades financeiras e crise interna. Em 26/1/2020, toma posse Francisco Rodrigues dos Santos, até então líder da jota partidária, que teve de lidar com a fuga de militantes e votos para os recém-formados Chega (que lhes retirou a ala ultraconservadora) e IL (que lhes retirou a ala neoliberal) para além da crise financeira interna. 

Com isto, surge o reaccionário Nuno Melo, o eurodeputado português mais faltoso, a fazer consecutivamente golpes internos no partido, para tentar atingir aquilo que nunca conseguiu: a liderança do partido. É neste cenário de crise interna que se encontram: vazios de ideologia, sob o perigo da extinção ou radicalização e com manipulações internas dum incompetente. 


E então?

Nisto, aparecem os comentadores políticos do PS e PSD a lamentar-se da situação do partido que lhes ajuda, para além dos comentadores do próprio partido, que existem em demasiado número face à sua presença política (em detrimento do BE, PCP e até o PEV neste género de painéis). Para estes é um horror o hipotético fim do partido.

Um partido tão abjecto, pejado de reaccionários e preso no passado não deve ter lágrimas de ninguém com o seu fim, tirando betos e a Igreja. O seu hipotético fim deve ser celebrado por quem se diz de esquerda (naturalmente, o PS não está incluído na esquerda), e combater os seus órfãos e partidos sucessores mais activamente.

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