Madonna Lacrimosa II

 A segunda parte disto trata, como já referi, a manipulação dos ditos "socialistas" após o veto parlamentar da proposta do Orçamento de Estado de 2022.

O que realmente aconteceu?

Tal como Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e José Luís Ferreira já referiram, o governo não quis ceder nas negociações nas poucas propostas apresentadas pelo PCP, BE e PEV, respectivamente. O máximo que houve foi a apresentação de algumas contra-propostas fracas por parte do governo ao PCP e BE, propostas essas já defendidas no passado pelo próprio PS, como a reversão das alterações do código de trabalho pelo passismo e o aumento do salário mínimo nacional para acompanhar a inflação e a produtividade.
O PR, fruto do apoio tácito do PM nas presidenciais de janeiro e ao apoiar Rangel para suceder a Rui Rio, decidiu ameaçar a Assembleia da República, nomeadamente os grupos parlamentares do PCP, PEV e BE, com a sua dissolução caso não fosse aprovado o OE, apesar de nada estar constitucionalmente previsto caso tal legislação não fosse aprovada. 
Já em 2019 se observava na sede de campanha a ambição do PS em provocar eleições antecipadas com o reforço parlamentar, algo que incentivou Jerónimo de Sousa a recusar qualquer acordo de incidência parlamentar. O BE ainda tentou formalizar um acordo com propostas entregues a ao PS, mas o PS recusou, optando por acordos pontuais nalguma legislação e negociações do OE. 
Ora, o governo PS, obcecado pelas "contas certas" como se fosse o PSD de Passos, foi travando a execução orçamental, nomeadamente na cultura, ensino e SNS, já por si suborçamentadas, com ameaça de colapso, não fosse a pandemia obrigar o governo a desembolsar dinheiro. Mesmo assim, na votação para o rectificativo de 2020, já a esquerda alertava que não podia continuar assim, com a abstenção do BE e voto contra do PCP e PEV. Na votação do OE para 2021, veio um novo alerta da esquerda: o voto contra do BE e abstenção do PCP e PEV, urgindo uma execução orçamental total e apoiar as propostas da esquerda, em vez de as chumbar com a direita. Este ano, fartos das aldrabices e recusas negociais do PS, votaram contra o OE para o próximo ano.

A máquina de propaganda e o "direito divino do poder"

Como não podia deixar de ser, o PS activou a sua máquina de propaganda, com os seus comentadores afectos a declarar guerra ao Bloco de Esquerda ainda em 2020, ao PCP antes da realização da Festa do Avante!, aos candidatos das presidenciais (João Ferreira e Marisa Matias) por parte de Ana Gomes e de um dos partidos que a apoiava e ambiciona ser um CDS para o PS, enquanto gritavam por uma "convergência à esquerda".

 O PS repetia a votação ao lado da direita chumbando as propostas da esquerda para acabar com a precariedade nas administrações públicas, na cultura, no SNS, no ensino e na investigação científica, na reversão da privatização dos CTT, na desistência de fazer o atentado ambiental na base aérea do Montijo, na investigação a negociatas danosas para o Estado, criminalização do enriquecimento ilícito e protecção do ambiente, entre outras. A esquerda criticava estas atitudes e lá reforçavam os ataques à esquerda.

Na sessão solene do 25 de Abril, a esquerda criticou o perigo da ascensão da extrema-direita se o PS continuasse a travar as suas medidas, mas o PS ignorou esse apelo e considerou um ataque ao seu direito de estar no poder. Ao longo do ano, os spinners e sock puppet accounts do PS continuaram os seus ataques à esquerda. Após as autárquicas, o PS juntou-se a PSD e Chega para retirar a CDU da presidência das assembleias municipais de Palmela e Silves, repetiu o bloco central em Almada e aprovou a comemoração do 25 de Novembro em Sintra (proposta pelo chega), abstendo-se, e o parceiro de coligação para Lx, o Livre, repetiu os ataques à esquerda que promovera após as presidenciais. A mensagem foi clara: para o PS, não há linhas vermelhas para ir para o poder.

À esquerda via-se que o PS julgava dominar o panorama político nacional por ter ganho algumas autarquias e ter OE passados em branco. A proposta do OE não contemplava várias propostas da esquerda, apesar dum fraco reforço orçamental dalgumas tutelas e havendo um forte corte noutras. Juntando-se a falta de execução orçamental do que tinha sido negociado no passado, a relutância negocial e ataques do PS, era clara a chantagem do PS com aval presidencial: ora aprovavam o orçamento de direita que alegaram ser o "mais à esquerda de sempre" ora iria haver eleições antecipadas. Naturalmente, a esquerda não cedeu a esta chantagem.

Ainda na discussão, o PS dividia-se entre a graxa e os ataques à esquerda. Desde a declaração das intenções de voto da esquerda contra o OE, os comentadores e spinners digitais afiliados ao PS começaram a esboçar os seus argumentos TINA: ou aprovam ou a direita volta ao poder com a extrema-direita; a esquerda votou ao lado da direita; a esquerda destruiu a geringonça. A isto seguiu-se os insultos à esquerda com o recurso à retórica da direita e extrema-direita, desde apelidar a esquerda parlamentar de "extrema-esquerda" ou "esquerda radical", insultar o PCP de estar ao lado dos fachos, de ser anacrónico, velho ou inútil, acusar a esquerda de depender da direita no poder porque não passam de "partidos de protesto" ao desejar o fim da esquerda no parlamento; comparação ao chumbo do PEC IV, dizendo que a esquerda quer uma crise para sobreviver, mas não dizendo porque a esquerda deveria ter aprovado um programa de austeridade com o qual o PSD e CDS concordavam mas queriam executar por eles próprios; os apelos ao "voto útil" no PS como única opção de combater a direita e extrema-direita, colocando no mesmo lugar da extrema-direita a esquerda parlamentar, e às vezes apelando também ao voto no PAN e Livre, que ambicionam ser pouco mais que o CDS do PS; dizem que a esquerda nunca fez nada pelo país, entre outros disparates alienados da realidade.

Sem contraditório de comentadores dos partidos de esquerda nas televisões e rádios, a propaganda passa fácil. O PS quer o poder, só partilhando com o PSD na alternância estabelecida pelo 25/11/75, numa falsa alternativa e cometendo os mesmos erros dos democráticos (o PRP pós-cisões na Primeira República): alienar da política quem não é burguês.

O que fazer então?

Parece difícil, mas é simples: não reforçar o PS, não desperdiçar votos no Livre e não votar nos partidos de direita (PSD, CDS, PPM, IL, MPT, Chega, RIR, PAN, Aliança, PTP, NC, Ergue-te, ADN [ex-PDR], Volt, JPP). 

Não acredito no voto útil, só apelo ao voto à esquerda para reforçá-la, haver políticas de esquerda e condicionar o PS para baixar a bolinha e impedir a direita de subir ao poder. Se é para votar, vote-se na CDU (PCP-PEV), BE, PCTP/MRPP ou MAS, em particular os dois primeiros!

 E isto em qualquer eleição, não só nas antecipadas de 30 de Janeiro. Não pode continuar a estagnação do "arco da governação" no poder desde o 25 de Novembro.

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