A beligerância que todos querem
Parece que finalmente o Ocidente tem o que queria: um pretexto para as sanções e o uso da Ucrânia como matadouro. E a Rússia aguenta os ultranacionalistas dentro do país e nos separatistas de Donetsk e Lugansk.
Porque chegámos a este ponto? Porque é que desde 2014 a diplomacia falhou redondamente?
O prelúdio
Como é sabido, a dissolução da URSS no Natal de 1991 levou à criação de 15 países, ficando a Rússia como sucessora desse país, surgindo posteriormente conflitos em antigas RSS Autónomas, como a Transnistria e Gagaúzia na Moldávia, a Abecásia e Ossétia do Sul na Geórgia, o Alto Carabaque no Azerbaijão e a Chechénia na Rússia. Destes territórios, só a Gagaúzia conseguiu um estatuto autónomo e a Chechénia foi reanexada após dois conflitos com islamitas.
Mas recuemos mais um pouco no tempo. A URSS ainda existe, Portugal e Espanha vivem em regimes fascistas. Khrushchev governa a União Soviética e decreta a transferência do oblast da Crimeia (outrora RSS Autónoma até 1945, retomando o estatuto em 1991) da RSFS da Rússia para a RSS da Ucrânia em 1954 com base na ligação geográfica e económica entre os territórios. Em 1997, eram assinados 3 tratados de partição da Frota do Mar Negro (com sede na península da Crimeia), repartindo a frota (a ser 81,7% russa e a restante ucraniana) e infra-estruturas, com o arrendamento russo das bases na Crimeia (com o valor descontado do gás transferido para a Ucrânia) até 2017, renovável por mais 5 anos, a manutenção de armamento russo na península e a obrigatoriedade da Rússia a respeitar a soberania ucraniana no território de maioria russa. Em 2010, era assinado o Pacto de Kharkiv, que prolongava a presença russa até 2042 por descontos no gás. Estes tratados seriam anulados com a invasão e anexação da Crimeia por parte da Rússia em 2014.
A queda de Yanukovich em 2014, após o Euromaidan e ascensão da extrema-direita ucraniana, levou à "descomunização", renomeação de localidades, erecção de monumentos a louvar figuras nacionalistas e que colaboraram com a ocupação nazi, proibição da língua russa como língua co-oficial (com a revogação duma lei de 2012) e a um cisma entre a igreja ortodoxa russa e a ucraniana. Ora a comunidade russa no leste e sul do país organizaram sucessivos protestos entre fevereiro e maio, apelando à reversão da proibição da língua russa e à federalização.
Nos oblasts de Donetsk e Lugansk, os protestos evoluíram para uma insurreição armada por parte de separatistas russos, com envolvimento logístico russo e até de neonazis russos. Em resposta à insurreição, o novo regime ucraniano íntegra a milícia neonazi Batalhão Azov no ministério do interior e inicia uma contra-ofensiva ainda em 2014. Posteriormente seguem-se os cessar-fogos dos acordos de Minsk, assinados entre a Rússia e as autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk por um lado e a Ucrânia por outro, sob mediação da França e Alemanha e com fiscalização da OSCE. Nesse mesmo período, as ditas Repúblicas Populares formaram uma confederação designada República Confederal da Nova Rússia, suspensa em 2015.
Isto tudo levou a sanções sobre a Rússia e os envolvidos no levantamento armado por parte do ocidente, progressivamente agravadas com o tempo e atitudes beligerantes russas e o abate do vôo MH17.
Mais recentemente
A influência russa sobre o mandato de Trump caiu em 2021, após as presidenciais nos EUA e começo de investigações sérias sobre o envolvimento russo na manipulação eleitoral de 2017 e tentativas em 2021. A isto, junta-se a pandemia de Covid-19 e negacionismo da existência da mesma ou da eficácia das vacinas, a retirada apressada dos EUA e europeus do Afeganistão aquando da tomada de Cabul pelos talibãs e a crise económica geral.
Com a manipulação de Lukashenko das eleições bielorrussas e da repressão dos manifestantes pró-democracia, a invasão azeri-turca do Alto Carabaque e o esmagamento dos protestos cazaques, o envolvimento militar russo alargou-se. Os exercícios militares próximos da fronteira ucraniana nos finais de 2021 e que acabaram em fevereiro deste ano levaram a uma retórica anti-Rússia por parte dos membros da NATO, retirada de pessoal diplomático de Kiev, "previsões" de invasões russas da Ucrânia, envio de armamento ocidental para a Ucrânia e reforço dos membros da NATO com fronteiras próximas da Ucrânia. A isto não ajudou as posições ambíguas do presidente ucraniano, que critica tanto as ameaças ocidentais à Rússia como depois ameaça sair do Memorando de Budapeste (1994) para obter armas nucleares, isto tudo durante a crise económica e um novo grupo de oligarcas, liderados pelo ex-presidente Poroshenko, a tentar tomar o poder.
A isto tudo acrescenta-se o mediatismo dramático duma possível guerra, forjando uma falsa dicotomia (Rússia má, Ucrânia boa porque quer vir para o ocidente), a sabotagem da diplomacia pois a Rússia quer ser levada a sério e o ocidente prefere tratar o país como um mero regime autoritário que lhe opõe, ignorando preocupações de segurança e, ao que parece, a violação dum acordo entre a Rússia e a NATO nos anos 90, prometendo esta não alargar para o antigo Pacto de Varsóvia (que não foi cumprido) e o branqueamento do envolvimento dos neonazis no conflito no Donbass. A 21 de Fevereiro de 2022, após uma resolução na Duma, Putin declarou reconhecer as autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk com um discurso ridículo (mas normal a nível nacionalista) e revisionista histórico, alegando que a Ucrânia não existia e que foi uma invenção de Lenine e Estaline, que o regime ucraniano pós-euromaidan foi uma usurpação por agentes externos duma manifestação legítima. Após o discurso, festejou-se em Donetsk e Lugansk, Putin ordenou o envio de forças de pacificação ao Donbass até à linha da frente e o ocidente declarou sanções aos indivíduos envolvidos. Isto levou a alguns ocidentais paladinos dos direitos humanos™ a apelar a que se façam sanções "sérias" daquelas que colapsam países, como a exclusão do sistema Swift, corte de chamadas internacionais de e para a Rússia, proibição dos gabinetes no estrangeiro da comunicação social russa, proibição do comércio com países que reconheçam aquilo, etc. Outros ocidentais fazem comparações ignorantes ao appeasement de Chamberlain com a entrega dos Sudetos à Alemanha Nazi. Por outro lado, o boicote do gás russo enriquece norte-americanos e japoneses e a recente decisão da Comissão Europeia via lobby francês de considerar o gás como "energia verde" (já não se importam com a emissão de GEE) e um conflito enriquece especuladores bolsistas.
No fundo
Os únicos que têm algo a perder são os civis no terreno, de crianças a idosos, em regra, apolíticos, esmagadoramente empobrecidos com 8 anos de conflito, deslocados forçosamente quer para a Rússia quer para a Ucrânia. Num menor grau, as consequências da especulação bolsista para os restantes terráqueos já numa crise económica.
Não deixa de ser irónico que os países que gritam agora pela integridade territorial da Ucrânia ignorem a ocupação turca do Norte da Síria (desde 2016, onde procedem ao alargamento do genocídio curdo e libertam jihadistas) e do Chipre (desde 1974), se calhar porque é um membro da NATO, a ocupação sionista dos Montes Golãs (desde 1967) e da Palestina (desde 1948), marroquina do Sahara Ocidental (desde 1975). Também é irónico que alguns autoproclamados "comunistas" e "anti-imperialistas" minimizem o papel imperialista russo só porque o imperialismo dos EUA é pior.
Comentários
Enviar um comentário